quinta-feira, 26 de maio de 2011

Das Incongruências

(...os liláses de Monet...) 
Tudo o que eu sei, somente sei porque amo. (Liev Tolstoi, em Guerra e Paz, 1865)

Já que citamos Gabo no último texto aqui postado, continuemos a falar sobre esta artéria vital que é a literatura, e de seus veios, seus mestres sagrados. É que só mesmo Gabo para me tranqüilizar a respeito das urgências – estas nossas que temos todos, cada um a seu modo e ao seu teor – de lograr um sonho fundamental no espaço-tempo das nossas biografias. No meu caso, um livro. Gabo, por exemplo, me confessa que levou nada menos que dezenove anos para escrever os seus Cem Anos de Solidão. Entre as idas e vindas com enredos e alinhavos, foram então quase duas décadas! Isto me traz certo alento, embora não resolva de todo a inquietude do que estar por se fazer.
É por estas e outras que gosto tanto das biografias, melhor ainda, das autobiografias porque tanto assim conhecemos o quanto de humanidade cabe nos gênios, o quanto de heresia cabe nos santos. Desnudam-se os pecados, revelam-se os segredos, os nossos, inclusive. E reconhecemos pois as incongruências das nossas próprias vidas. Incongruente tem sido o fato de eu não me dedicar o quanto gostaria e deveria à felicidade absurda e dolorosa da escrita. Sim, que não se engane: nem sempre, talvez, quase nunca, os textos fluem; na maioria das vezes, os textos doem. A propósito, Lispector já descrera isto muito bem.
Incongruentes, portanto, têm sido os dias. Às vezes, a sensação é de que a vida caminha tortuosa demais ante aquilo que mais se deseja. Porque penso que seria necessário pausar esta vida prática, ordinária, burocrática para ceder muito mais espaço à criação. E isto nunca tive na vida: tempo largo e exclusivo para a escrita quando esta se revelou a mim enquanto uma necessidade vital. O próprio Gabo revela que não raro passou anos e anos dialogando com as personagens das suas tantas tramas e tecendo ponto a ponto todas as suas vicissitudes. Ou seja, isto requer tempo e espaço vastos, muito vastos.
Não apenas Gabo, mas Sabato também – de quem ficamos órfãos há menos de um mês – nos alertava, em “O Escritor e seus Fantasmas”, que a condição mais preciosa do criador é o fanatismo. E acrescenta: tem que ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela; sem este fanatismo não se pode fazer nada importante. Depreendo disto que precisarei – preciso, é bem verdade – de todo tempo, espaço, energia e empenho para a devoção que uma cria exige do seu criador.
A esta altura, este texto deixa de ser algo perto de uma crônica para ganhar mais um tom de desabafo. Uma amiga muito querida, inclusive, do mundo das Letras, diria que aqui – sim, este humilde blog que vos fala – já não é mais espaço para despejos assim tão pessoais. Entendo perfeitamente o que ela quer me dizer, com toda a melhor das suas intenções, todavia entre o entendimento e a liberdade da palavra, cedo à segunda opção porque mesmo implacável.
Outra amiga, igualmente querida e devoradora sagaz da boa literatura, já defenderia o contrário: que caberia aqui a palavra livre, tal como vem ao mundo, desde quando seja em nome de uma constante atualização dos textos postados. Entendo absolutamente também o que me sugere, com a mais nobre das suas intenções, porém entre o entendimento e a rebeldia da palavra, rendo-me à segunda porque ela – a palavra – só vem quando quer.
Enfim, entre liberdades e rebeldias, sigo servindo à palavra. O contrário também se aplica: sigo me servido das palavras. Principalmente porque, em meio às tantas incongruências vividas cotidianamente, o blog é trégua, o blog é uma casa que eu gosto de estar. E que fique claro: não desmerecendo meus esforços e elogios generosos que me chegam, ainda está longe, muito longe do que gostaria de alçar em um livro. Vejo-o, portanto, como pequenos vôos, mas tão cheios de sinceridade e de mim. O blog, esta casa onde gosto de estar.
Sei que ainda precisarei dedicar-me cega e obstinadamente... Resta-me seguir os impulsos...

Ana Clara Rebouças

Dos Arcádios, dos Aurelianos

(Mami e eu nos idos do século passado,
Chapada Diamantina, 1980)
Para a família Rebouças, tão marcadamente enovelada entre seus Aurelianos, seus Arcádios.
Só sei dizer que Gabriel Garcia Marquez em seu “Cem Anos de Solidão” poderia facilmente ter descoberto as leis da genética se fosse o caso, antes mesmo de Mendel lá pelos idos de antigamente. Todavia, Gabo a teria feito assim muito mais cheia de lirismos e encantamentos; assim muito mais poética – e nem por isto menos convincente – seria a teoria do que já é o simples e complexo fato de descender.
Neste sentido, entre as sucessões de Arcádios e Aurelianos, é tanto bonito de se ver a redundância inusitada-previsível que a natureza tem. Isto porque, talvez, seja então do feitio da vida esta doce tentativa de imprimir as existências nas faces, nos jeitos, nos gostos, nos gestos, e então perpetuar gerações e gerações no tempo, no espaço. É mesmo lindo de se ver o afinamento harmonioso dos acasos.
Sigo pensando sobre isto justamente uma vez que nestes últimos anos tenho me achado muito, mas muito parecida mesmo com a minha mãe. Inclusive, como jamais cogitei parecer porque não somente tenho expressado as suas virtudes – modéstia à parte, nobres virtudes – mas também das suas cóleras e manias caóticas de desorganização, por exemplo. Daí, sou obrigada a concordar que isto que chamam de “genética” – e que Gabo descreveria em seu livro tão extraordinariamente – é mesmo implacável.
Sendo assim – uma expressão inusitada e previsível da minha mãe – tenho me furtado a tantos caprichos dentro do dia a dia, o que chamarei aqui de cotidianidades, que tem sido como um direito irrestrito a concessão diária de um prazer, um único e simples prazer, nem que este venha da simples rosa que se avistou de uma pobre sacada solitária. Porque minha mãe é – sempre foi – muito mais dada às cotidianidades do que às projeções: minha mãe, e tenho assim sido, é muito mais presente do que futuro, minha mãe é o dia de hoje.
Somos então, a minha mãe e eu, cheias de lapsos de cotidianidades: ao invés de castelos, vastos castelos, somos dadas ao banco da praça porque ali, somente ali, passeia uma brisa de fim de tarde, tem o cheiro de café das casas vizinhas e as crianças sorriem ali porque livres, aos pés do banco da praça. Não que não se deseje os vastos castelos, mas as nossas felicidades, prazeres e alegrias absurdas estão também tão ao alcance das mãos e pertencem a tudo que é da ordem do diário, às cotidianidades. Beiju e chocolate quente têm, por exemplo, o mesmo peso de felicidade do que um banquete farto qualquer; girassol, desconfiamos, tem alguma coisa de divino – prova incontestável da existência de um deus – e só por haver poesia vale à pena ter vivido.
Então tem sido assim: não tenho passado um dia que seja sem que me permita a uma mínima alegria. Todavia, na contramão de toda leveza, não há também sequer um dia que não caiba algum esforço, alguma labuta, de quando em quando, um pesar. Porque, como mesmo diz a minha mãe, inspirada em Santa Terezinha, um dia sem sacrifico é um dia perdido. E ainda que, conscientemente, eu não guarde em mim um traço de religiosidade qualquer, tenho apreço por este empenho, assim tão cheio de fé, que vem da minha mãe, e que, por sua vez, vem da minha avó. Assim, entremeando os sacrifícios nossos de cada dia, nos permitimos ao hábito incontrolável de alguma felicidade, mesmo que isto tenha um custo de ordem qualquer.
Portanto, entre os enovelados Aurelianos e Arcádios, devo confessar que sigo mais a linhagem que vem da minha mãe e que, certamente, veio da minha avó. Dela, entretanto e infelizmente, desconhecemos as suas redundâncias – e toda a poética que delas viria – perdidas que estão na sua ascendência italiana paterna e nas raízes africanas que corriam vívidas nas veias da bisa. Pena, as desconhecemos ambas, as quais nem ela mesma teve acesso. Incongruências do viver. No mais, seguimos nos encontrando e nos perdendo; reconhecendo-nos e nos surpreendendo com as reedições fantásticas que a vida nos traz...
Ana Clara Rebouças

domingo, 8 de maio de 2011

Dos Adeuses

(Flor dos Três Corações por ACRebouças, Rio de Janeiro, 2011
Para Sibele Rebouças, minha outra mãe."...todos os encontros são adeuses..."
(Mário Quintana)

Muito cedo aprendi que a vida é tecida fora a fora por adeuses. Sim, a vida é mesmo toda feita de adeus. E foi na altura dos meus oito anos de idade, assim realmente tão cedo, que aprendi, por exemplo, o que é perder a convivência diária de um grande amor. Grande amor, a esta época da vida, só poderia mesmo ser daqueles que habitam o mesmo lar: uma tia amável, quem me cuidou desde o nascimento e bem ao seu modo particular: laços de fita, dança na chuva, pão-de-ló oferecido no meio de uma tarde qualquer, beijo morno na testa tal qual pétala em queda. É, o meu primeiro grande adeus me chegou – e talvez só poderia mesmo vir assim – das incoerências do amor.
Adeuses desvelados um a um, na mansidão dos outonos e primaveras, na euforia dos verões ou na calmaria tristonha dos invernos. Adeuses de todas as naturezas, tons, intensidades, loucuras vida e estações afora. No caso precoce e específico da minha tia, casou-se e partiu para viver em outra cidade longe dali, onde vivíamos um tipo de dia a dia que fazia zelo e afetos. Foi realmente um duro e dolorido adeus. Passadas quase duas décadas, aliviou-me, e alivia, o fato da minha tia permanecer junta a seu grande amor até os dias de hoje, notável raridade em tempos nossos de tamanha fluidez dos laços todos.
Confesso que, àquela época, já experimentava, junto com a sensação progressiva da perda, o ciúme, este primo próximo do adeus que não se desejou – ou do risco de. Sim, chegava-me a frieza cortante do ciúme ao vasculhar clandestinamente pela fresta da janela, e na pontinha dos pés miúdos, os beijos e abraços amorosos de namorados inundados da luz do luar. Todavia, aquietava-me o coração e roubava-me o mais feliz dos sorrisos de dentes de leite quando voltava das sessões de luas apaixonadas e me dedicava doces canções de ninar, tão bem entoadas em sua voz suave. Entendia então que não se tratava de adeus: amor que é amor é, pois, recorrente. O amor: renovadas idas e vindas, de esplendor e adeus.
Longe dos tempos de dentes de leite, aprendi, entretanto, que há adeuses enquanto fatos e processos: longas partidas, a passagem do tempo, novas formas de, o extremo da morte. E todo mundo lida, ao seu próprio modo, com os adeuses que lhe chegam implacavelmente, pois sempre chega o adeus. E o bonito da vida está nesta infinidade em se recriar sobre as circunstâncias. Há então quem se confine nas memórias; há quem se alimente dos lamentos. Há quem viaje o mundo; há quem prefira o bar. Há os adeptos da fé; há os que saem para bailar; e há quem compre compulsivamente. Há quem se dedique exaustivamente à poesia; há quem prefira um caminhar solitário à procura de. Há tantas formas de se reencontrar...
...dentre os tantos adeuses, o único enfim ao qual não podemos ceder é o de nós mesmos...
Ana Clara Rebouças

domingo, 1 de maio de 2011

“Seis Bilhões de Outros”


Dizia um sábio que “não padece de solidão quem tem vida interior”. Pensei nisto ao percorrer os veios tão vívidos de São Paulo, cidade pela qual tenho profundo fascínio. Era um domingo de Páscoa e, longe de casa, da família, optei por passar o dia entre “seis bilhões de outros”, como bem se intitulava a exposição em um famoso museu da capital. E assim, em meio a tanta diversidade, a tanta riqueza, esta ímpar que vem da pessoa humana, não se pode mesmo se sentir só.
É assim que São Paulo sempre me recebe: entre seus tantos milhões de outros, esta gente tão diversa, mas tão sua. São Paulo da sua gente tão exaustivamente trabalhadora. Emociona-me o trabalhador de São Paulo, o tanto de esforço com o qual tece vida. Emociona-me encontrar os conterrâneos e, aqueles que me prestam um serviço qualquer, o fazem com redobrada generosidade porque, talvez, encontrem em mim um tanto de história e de afetos que deixaram para trás.
São Paulo me recebe com suas grandes avenidas agitadas, tumultuadas de corpos e avidez, mas também me acolhe em suas ruas estreitas, pacatas, cheias de memórias e nostalgias. São calçadas cheias de doces quaresmeiras lilases: São Paulo me acolhe com a generosidade de um céu claro, mas também com sua garoa tristonha ou as chuvas tórridas sobre mentes e corações.
São Paulo é o mundo todo; é Brasil norte a sul; é nordeste, sua gente, força, persistências, temperanças. São Paulo é contínua construção: sua ética, sua lógica, suas métricas. São Paulo é ousadia: sua estética libertária, revolucionária, renovada nos tempos, espaços. São Paulo me acolhe com as suas surpresas. São Paulo é pulso, impulsos, sonhos, projetos. São Paulo é poesia, é concreto, é pluma, é densidade. Poemas, suspiros fumos no ar...
Ana Clara Rebouças